OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA (1985)
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OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA (1985)



(A resenha de hoje vai especialmente para o pessoal da mesma idade que eu, que, nesse período de férias, sempre assistia as reprises dos filmes dos Trapalhões nas tardes da Globo.)

Pouca gente lembra que Dedé Santana, além de ser o segundo na hierarquia de importância do quarteto Os Trapalhões, também dirigiu alguns dos filmes do grupo.

Os dois últimos trabalhos assinados por ele se caracterizam pela metalinguagem, trazendo Didi, Dedé, Mussum e Zacarias no "papel" deles mesmos, num interessante conceito que aproveitava a fama estrondosa que os humoristas faziam no Brasil da década de 80.


Esses filmes estão de certa forma conectados. Um deles é a animação "Os Trapalhões no Rabo do Cometa" (1986), já resenhada aqui, em que o quarteto aparece fazendo um show no Teatro Scala antes de "virar desenho animado". O outro é OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA, lançado um ano antes, mas produzido e filmado ao mesmo tempo que "O Rabo do Cometa".

A trama de OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA é simplíssima: Xuxa Meneghel (que então ainda fazia seu show infantil na TV Manchete, tendo se bandeado para a Globo apenas em 1986) é uma freirinha inocente, a Irmã Maria, professora do Orfanato São Judas.


Quando problemas financeiros ameaçam fechar o local, ela decide convidar Os Trapalhões para fazer um show humorístico beneficente, angariando o dinheiro que salvará o orfanato e suas crianças.

Mas um grupo de bandidos liderados por Maurício do Valle rouba a bolada, e Didi e Dedé iniciam uma longa perseguição aos meliantes, enquanto Mussum e Zacarias continuam no palco levando o show adiante para não frustrar o público que lotou o teatro.


O que mais salta aos olhos hoje, revendo o filme, é a ruindade e total falta de coesão/conexão do roteiro escrito por Dedé, Renato Aragão, Paulo Andrade e, vejam só, Jorge Fernando (!!!).

Sem muita preocupação em contar uma história linear, OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA tem números musicais (desnecessários), um trecho de quase 20 minutos em animação (sem muita conexão com o resto da história), vários esquetes humorísticos encenados pelo quarteto durante seu "show beneficente" e, finalmente, a longa perseguição aos bandidos, que ocupa a meia hora final do filme.


Descontando os créditos iniciais e finais, não sobra nem 1h10min de "história". Se tirarmos a animação, os esquetes e as músicas, então, não sobra praticamente nada. Logo, é uma desculpa bem esfarrapada para se fazer um longa!

(Mais ou menos como "Cheech & Chong em Amsterdan", de 1983, outra picaretagem composta, em sua maior parte, pela gravação de uma apresentação ao vivo dos dois comediantes norte-americanos.)


A melhor coisa de OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA é justamente o trecho em animação, novamente produzido pelos Estúdios Maurício de Souza. Mas o mais estranho é que este trecho está ligado diretamente à história do desenho animado "Os Trapalhões no Rabo do Cometa", que foi lançado NO ANO SEGUINTE.

Inclusive traz o personagem do Bruxo (dublado por José Vasconcelos) que precisa segurar na mão do Didi, para recuperar os poderes mágicos roubados pelo Trapalhão. Como toda essa trama é explicada apenas em "O Rabo do Cometa", quem viu OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA em 1985 não deve ter entendido bulhufas...


(A minha teoria é de que "O Rabo do Cometa" foi inicialmente idealizado para ser lançado em 1985, mas Maurício de Souza e sua trupe não conseguiram concluir o processo de animação, assim liberaram apenas um trecho já pronto e os Trapalhões tiveram que se virar para fazer um filme às pressas e tapar o buraco.)

Curiosamente, ainda, esse trecho em desenho animado parece ser justamente O FINAL da história de "O Rabo do Cometa", com Didi, Dedé e Mussum viajando para um futuro em que cachorros-mecânicos fazem xixi elétrico nos postes e robôs-mendigos pedem óleo como esmola.


Ali, o Bruxo é finalmente vencido por Zacarias usando uma arma paralisante. Logo, essa parte não é apenas um "aperitivo" para o desenho animado que seria lançado no ano seguinte, como eu cheguei a pensar, mas um complemento da história do filme POSTERIOR! Melhor não tentar entender...

O restante de OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA dá destaque à apresentação dos humoristas no palco de um teatro - quase como um "Monty Python Ao Vivo no Hollywood Bowl" dos pobres.


É uma rara oportunidade para o quarteto refazer alguns de seus esquetes mais conhecidos do programa de TV dominical, como o do Didi boxeador comendo "rapadura atômica" e soltando bordoada em todo mundo - no rival, no próprio treinador, no juiz da luta e até no câmera!

Outro momento impagável é o dos "Heavy Trap's", trazendo Os Trapalhões como banda de heavy metal. Quem não rir de Mussum na bateria e Didi sem camisa tocando guitarra, ambos com exageradas perucas de cabelos longos, não é humano (confira se você é humano ou não vendo o vídeo abaixo).

Heavy Trap's in concert



(A propósito, o vocalista da banda, que canta a estúpida música "Hoje Não é Meu Dia de Sorte", é um tal de Lenine. Sim, você leu direito: AQUELE Lenine...)

A meia hora final acompanha a longa perseguição de Didi, Dedé e Xuxa aos meliantes que roubaram a bilheteria do espetáculo. Até o falecido Beto Carrero aparece em pessoa para dar uma mãozinha aos Trapalhões, e há perseguições de carro, moto, cavalo e diligência.

Apesar disso, e da pancadaria pastelão típica do grupo, estes são os momentos menos engraçados e divertidos da obra, privilegiando a ação, o corre-corre e o trabalho dos dublês.


A metalinguagem não se resume aos Trapalhões interpretando "eles mesmos", e aparecendo como um quarteto humorístico famoso (que realmente eram).

Também aparece em cena a famosa revista dos Trapalhões publicada pela Bloch (que eu citei na resenha de "O Rabo do Cometa"), e, durante um número musical, são exibidas fotos antigas de cada um dos Trapalhões, além de cenas dos longas anteriores do grupo. Você pode conferir essa parte no vídeo abaixo:

"É legal ser um Trapalhão?"



É óbvio que OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA foi feito para o público infantil e não deve ser levado muito a sério. Mesmo assim, é impossível não se enfurecer com alguns momentos excessivamente ingênuos e absurdos do roteiro, como a diretora que interrompe uma aula da freirinha Xuxa para informar que o orfanato será fechado em um mês por causa dos problemas financeiros - como se essas coisas fossem anunciadas assim, e não em reuniões particulares.

Tem ainda o fato de que alguns dos números apresentados pelos Trapalhões no suposto show humorístico exibem cenários, figurinos e efeitos especiais muito elaborados para estarem realmente acontecendo "ao vivo" no palco de um pequeno teatro.


Porém, mesmo num filme fraco dos Trapalhões, é possível pescar algumas coisas bem interessantes, como Beto Carrero fazendo o tipo "herói do Velho Oeste" (engraçado que ninguém nunca tenha pensado em produzir um longa de ação com o sujeito naquela época).

Ou o curioso (e inapropriado) apelo erótico da freirinha Xuxa, que parece estar num "nunsploitation" dirigido por Jess Franco, sempre com as coxas de fora ou a bundinha empinada, ou então caindo maliciosamente sobre Didi e Dedé - numa cena-chave da trama, Didi confessa estar apaixonado pela religiosa, algo que hoje não soaria nada bem.


Mas o melhor mesmo é o pequeno trecho em desenho animado - pouco, muito pouco, para salvar esse patético projeto de longa, que parece improvisado, feito às pressas, algo meio "tapa-buraco" para aproveitar as férias da garotada e juntar mais uns cobres à fortuna dos Trapalhões na época.

Nesses tempos de tecnologia ao alcance de todos, bem que algum fã dos Trapalhões poderia fazer, no computador, uma "fan cut" de "Os Trapalhões no Rabo do Cometa", eliminando as cenas com o quarteto ao vivo e adicionando este trechinho de animação mostrado em OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA no final, onde ele deveria estar desde sempre.


E não foge à regra: dificilmente a garotada de hoje irá curtir o humor "estranho" deste filme, que acaba sendo indicado, apenas pela nostalgia, àquele pessoal que cresceu vendo as produções do quarteto.

Aproveitando o período de férias que se inicia, OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA é uma boa sugestão para recordar aqueles inocentes tempos da infância ou adolescência. E talvez se pegar rindo sozinho das palhaçadas dos Trapalhões, como um autêntico idiota - tipo eu aqui, durante o show dos "Heavy Trap's".

Cena de OS TRAPALHÕES NO REINO DA FANTASIA



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Os Trapalhões no Reino da Fantasia
(1985, Brasil)

Direção: Dedé Santana
Elenco: Renato Aragão, Dedé Santana, Mussum,
Zacarias, Xuxa Meneghel, Maurício do Valle, José
Vasconcelos (voz do bruxo) e Beto Carrero.



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