PAGANINI (1989)
Filmes Legais

PAGANINI (1989)



Um velho ditado diz que "De médico e de louco, todo mundo tem um pouco". Não sei quanto de médico tinha o ator alemão Klaus Kinski, mas, em seus 65 anos de vida e 40 de carreira, ele provou inúmeras vezes que tinha muito de louco. Kinski era uma daquelas figuras excêntricas, megalomaníacas e fora de controle cuja presença magnética roubava a cena de qualquer filme em que aparecesse (como Marlon Brando e, guardadas as devidas proporções, o malucão Gary Busey).

O problema era controlar o sujeito. Chamar Kinski de excêntrico foi generosidade minha: o alemão era doido mesmo, e doido varrido, daqueles que é melhor sair da frente quando surta. Nos mais de 130 filmes que fez, não foram poucos os que saiu brigado com diretores, atores e equipe técnica (às vezes até chegando às agressões físicas); não foram poucos, também, os filmes em que se recusou a ser dirigido, fazendo o que lhe desse na telha, e azar do diretor ou dos atores que contracenavam com ele.


Para dar uma ideia da loucura do indivíduo, o próprio Klaus espalhou a fofoca (mantida viva até hoje) de que teria transado com sua filha, a bela Nastassja Kinski, quando ela tinha apenas 12 anos. A história só foi desmentida tempos depois, quando descobriu-se que a moça perdeu a virgindade com o namorado pedófilo Roman Polanski (quando tinha 15 anos de idade!), mas muita gente ainda acredita que foi o pai quem primeiro papou a filha.

Nem mesmo o respeitado cineasta alemão Werner Herzog, que era amigo de Kinski e chegou a viver com ele numa mesma casa, conseguiu colocar o descontrolado astro nos eixos. Herzog o "dirigiu" em cinco filmes ("Aguirre, A Cólera dos Deuses", "Woyzeck", "Nosferatu", "Fitzcarraldo" e "Cobra Verde"), mas o relacionamento entre a dupla foi tão dramático que gerou o documentário "Klaus Kinski - Meu Melhor Inimigo", que o diretor lançou em 1998, sete anos depois da morte do problemático ator em 1991, por ataque cardíaco (humor negro: nem o coração aguentava mais as doideiras do velho Klaus!).


Confesso que adoro ler/ouvir sobre o inferno que era fazer qualquer coisa com Klaus Kinski. Seu nome eventualmente é trazido à tona quando eu converso com diretores estrangeiros em festivais de cinema. No Fantaspoa de 2010, o cineasta italiano Luigi Cozzi me contou como ajudou os produtores de "Nosferatu em Veneza" a terminarem o filme: três diretores já tinham brigado com o astro Kinski e sido demitidos até então (Maurizio Lucidi, Pasquale Squitieri e Mario Caiano), e o produtor Augusto Caminito estava filmando ele mesmo antes de pedir uma ajudinha a Cozzi para tentar controlar o ator!

Já no Fantaspoa deste ano (2012), foi a vez do americano David Schmoeller narrar suas desventuras tentando dirigir Kinski em "Perversão Assassina" (a dramática relação entre os dois rendeu até um curta dirigido por Schmoeller, "Please Kill Mr. Kinski", que você pode e deve ver clicando aqui).

E se dirigir um louco já era complicado, imagine o que aconteceria se o louco dirigisse a si próprio. Pior: se o louco estrelasse um projeto totalmente autoral que ele também escreveu e editou! O resultado, senhoras e senhores, é PAGANINI (também conhecido por aí como "Kinski's Paganini"), um dos filmes mais doidos em que eu já tive a oportunidade de colocar os olhos - e, portanto, a obra perfeita para um blog chamado FILMES PARA DOIDOS!


Para quem não sabe, Niccolò Paganini foi um brilhante compositor e violinista italiano que viveu entre 1782 e 1840. O cara era tão foda nas cordas que seu violino parecia encantado, e logo começaram a surgir várias lendas urbanas sobre a origem do seu talento. A mais famosa, que sobrevive até hoje, é a de que Paganini teria vendido a alma ao Diabo em troca do sucesso, e que as cordas do seu violino seriam feitas das vísceras de uma amante sacrificada para o Capeta!

Com pacto ou sem, o violinista entrou para a história não apenas pelo talento como músico, mas também pela vida mundana como colecionador de amantes, geralmente meninas menores de idade, as suas preferidas. Entre suas conquistas mais célebres, consta que pegou até a irmã de Napoleão Bonaparte, Marianna-Elisa Bonaparte!!!


Mas o excesso de putaria logo cobraria seu preço: no fim da vida, Paganini praticamente definhava devido aos sintomas de sífilis e tuberculose (duas doenças que, na época, não tinham cura, e levavam o paciente a um sofrimento horrível). Quando ele morreu, a Igreja Católica proibiu que fosse enterrado em solo sagrado devido à sua vida mundana e à velha lenda do pacto com o demônio.

A vida sui generis de Paganini é um filme pronto para ser filmado. E assim fizeram realizadores de vários lugares do mundo, em pelo menos uma dezena de produções para o cinema e para a TV. Uma das primeiras foi feita na Alemanha em 1923, com ninguém menos que Conrad Veidt, um dos grandes atores de sua geração (protagonista de clássicos como "O Gabinete do Dr. Caligari" e "O Homem que Ri"), no papel do satânico violinista.


Uma nova cinebiografia do violinista era o projeto dos sonhos de Klaus Kinski há pelo menos uma década. Até porque o ator acreditava piamente ser uma espécie de reencarnação de Paganini (!!!). Ele encheu o saco do parceiro Werner Herzog durante anos para que ele dirigisse PAGANINI.

Diante da recusa do cineasta, que jurou que eles jamais trabalhariam juntos depois de tudo que Klaus aprontou durante as filmagens de "Cobra Verde", o próprio ator resolveu mergulhar de cabeça no seu sonho - ou seria pesadelo?


Surpreendentemente, Kinski conseguiu convencer o produtor italiano Augusto Caminito a bancar seu projeto. Lembra de Caminito? Ele já tinha sofrido o pão que o diabo amassou anos antes ao produzir "Nosferatu em Veneza", aquele filme em que três diretores foram demitidos por culpa do ator, e que o próprio produtor teve que terminar com a ajuda de Luigi Cozzi!

Enfim, qualquer pessoa em sã consciência fugiria correndo ao invés de encarar a produção de uma obra totalmente envisionada e desenvolvida por um louco, mas Caminito resolveu pagar para ver - e, a julgar pela beleza da recriação de época, também investiu uma bela grana no projeto. Talvez esperasse algo no nível de "Amadeus", a maravilhosa cinebiografia de Mozart que Milos Forman dirigiu anos antes; quem sabe até esperava que o PAGANINI de Kinski também lhe rendesse alguns Oscars, como aconteceu com "Amadeus"...


Bem, eu vou ser franco e direto com vocês: se tivesse que analisar PAGANINI como o filme que é, como cinema em si, a obra certamente receberia nota zero. Porque há problemas gigantescos, sobre os quais falaremos em seguida. Resumidamente, o resultado da megalomania de Kinski está longe de ser um bom filme - longe até de ser um FILME, já que, apresentando um mínimo de coesão narrativa, o resultado lembra mais uma colagem de imagens aleatórias do que uma narrativa cinematográfica.

Só que este também é um daqueles casos raros em que o artista responsável e a história por trás do projeto são melhores e mais interessantes do que a obra em si. Por menos que eu estivesse gostando de PAGANINI (e em vários momentos me questionei porque estava vendo essa bagaça), eu simplesmente não conseguia desgrudar os olhos da tela. Porque a cada cena, a cada take, ficava pensando menos na trama inexistente do filme e mais no que Kinski estaria aprontando nos bastidores, na hora de filmar aquilo tudo!


Um aspecto curioso do filme é a abordagem da "persona" de Niccolò Paganini: ao invés de cair no óbvio e enfocar aquela crença popular do pacto com o Diabo, Kinski preferiu centrar o foco num Paganini mais humano. Porém - e aí está o toque genial da adaptação -, o Paganini de Kinski é representado como se fosse um ídolo do rock, uma espécie de Mick Jagger do século 19, pegando todas as gatinhas só por causa da sua música e da sua performance, e com um séquito de "groupies" prontas para abrir as pernas ao primeiro acorde do seu violino!

Tem até uma cena grosseira e hilária em que Paganini está recebendo sexo oral de uma menina de joelhos, enquanto várias outras garotinhas observam pela janela e uma delas comenta: "Queria que fosse eu!".


PAGANINI faz um recorte ousado, enfocando os últimos anos da vida do músico, mas sem se preocupar em explicar coisa alguma da sua vida pregressa, como se todo mundo já fosse ao cinema sabendo todos os detalhes da vida e da carreira do violinista.

O filme começa com o músico na cama, à beira da morte, recebendo a visita de um emissário da Igreja, o padre Caffarelli (Bernard Blier), que foi enviado para tentar convertê-lo no leito de morte. Achille, filho do violinista, expulsa o sacerdote do recinto, e então Paganini começa a relembrar seus "melhores momentos" em flashback.


Já seria naturalmente difícil separar Paganini de Kinski, considerando que ambos foram artistas geniais marcados pela excesso de excentricidade e pelas histórias escabrosas espalhadas de boca em boca (se no século 19 todo mundo acreditava que Paganini tinha vendido a alma, no século 20 e até hoje todo mundo acredita que Kinski comeu a própria filha!).

Ambos também eram viciados em sexo com predileção por ninfetinhas, e o velho Klaus fez questão de escalar sua própria esposa na época, Debora Caprioglio, e seu próprio filho, Nikolai Kinski, para os papéis da mulher e do filho de Paganini, Antonia Bianchi e Achille! Esse nepotismo torna ainda mais difícil separar Niccolò de Klaus.


O restante do filme faz pouco ou nenhum sentido, e basicamente consiste numa série de imagens dos anos de glória do violinista. "Eu não sou jovem e nem bonito. Sou feio e pervertido. Mas quando as mulheres escutam a voz do meu violino, elas não hesitam em trocar seus maridos por mim", anuncia Kinski/Paganini.

E é só isso que veremos durante a maior parte do filme: como o violinista pulava de uma conquista para a outra, numa desculpa para que o filme apresente incontáveis cenas de sexo softcore às raias do explícito (digamos que Kinski realmente aproveitou essa sua experiência como diretor, roteirista e astro!).


A bem da verdade, existem duas rápidas cenas de sexo que podem ser consideradas pornográficas, X-Rated mesmo: na primeira, Klaus mergulha de língua na perereca cabeluda de uma figurante, e a câmera dá um close que confirma que o ator está com a boca na botija e tirando uma casquinha da moça; a outra mostra uma garota se masturbando na cama enquanto escuta a música de Paganini, com direito a dedinho entrando e saindo daquele lugar.

Os dois momentos são bem mais gráficos do que seria necessário, mas quem seria corajoso o suficiente para questionar o diretor E astro Klaus Kinski? Há ainda uma terceira cena em que ele aparece comendo uma figurante de quatro, e, embora não vejamos a penetração, fica bem evidente que "aquilo" está dentro "daquela", até pelas caras e bocas do casal!


Sendo PAGANINI o primeiro trabalho do astro alemão como diretor e roteirista (primeiro e único, já que ele morreu pouco depois), é possível identificar um pouquinho de vários cineastas com quem ele trabalhara e que devem tê-lo influenciado, de Herzog a Jess Franco (este último nas cenas de sexo no limite do pornográfico, mas sempre muito bonitas plasticamente).

Kinski também tomou umas decisões criativas corajosas que valorizam a obra, como ao filmar todas as cenas usando apenas luz natural (o Sol nas externas e a luz de velas e lampiões nas internas), a exemplo de Stanley Kubrick em "Barry Lyndon". Graças a esse recurso, a cena em que Paganini se apresenta num enorme tratro, iluminado apenas por lampiões, ficou lindíssima, com méritos para o diretor de fotografia Pier Luigi Santi.


O problema é que qualidade técnica não salva filme, e, como diz um velho ditado, se quisesse ver apenas fotografia bonita, eu comprava um livro do Sebastião Salgado. Não demora para PAGANINI tornar-se enfadonho pela ausência de roteiro, já que a narrativa confusa simplesmente vai saltando de uma cena a outra sem nada para guiá-las ou para costurar as imagens.

Sim, há alguns momentos bem interessantes, como aquele em que o velho Paganini vê um moleque tocando violino na rua e sendo ignorado pelas pessoas que passam. Talvez lembrando da sua própria infância humilde, o violinista toma o instrumento do garoto e começa um concerto maravilhoso no meio da rua, que reúne uma pequena multidão, de quem Paganini recolhe dinheiro para dar à criança.


A cena final, em que um Paganini vencido pela tuberculose literalmente toca violino até a morte, esvaindo-se em sangue no processo, também é maravilhosa, e provavelmente a parte mais marcante do filme.

Só que esses fragmentos ficam perdidos na montagem, e há pouquíssimos diálogos que expliquem quem são os personagens e quais são as suas motivações. Durante 80% do tempo, só sabemos sobre o personagem principal o que vozes em off comentam sobre imagens aleatórias e closes de Kinski! O resultado é um verdadeiro videoclipe de uma hora e meia, com as belíssimas composições de Paganini ganhando vida no violino de Salvatore Accardo, o responsável pela trilha sonora.


O alemão também exagera na megalomania. Além de sua carranca estar em praticamente cada frame, ele usa o filme inteiro como uma desculpa para auto-promover a si próprio como grande artista e grande comedor de mulheres, com direito a incontáveis cenas em que alguma garota começa a gemer ou acariciar as partes íntimas enquanto escuta o violino do músico!!!

PAGANINI inclusive me lembrou a única piada decente do filme "As Férias de Mr. Bean", de Steve Bendelack. A comédia é muito sem-graça, mas tem um momento inspirado envolvendo um cineasta cult chamado Carson Clay (interpretado por Willem Dafoe) apresentando seu novo filme no Festival de Cannes. O tal filme consiste em takes do próprio Clay caminhando em câmera lenta e filosofando em off. Não acredito que os roteiristas de "As Férias de Mr. Bean" tenham assistido PAGANINI, mas o filme falso estrelado por um diretor narcisista lembra muito, muito MESMO, este trabalho de Klaus Kinski...


No fim, PAGANINI é um filme caótico sobre o próprio Klaus Kinski, e não sobre Niccolò Paganini. A câmera registra um louco completamente fora de controle - mas, ainda assim, um louco que era um ator soberbo e que tinha uma presença hipnótica nas telas. E é preciso admirar muito o seu trabalho para aguentar essa prova de fogo, pois o alemão doido aparece em 99% do filme!

Claro que o fato de o próprio Klaus ser o montador explica porque somos bombardeados com tantas imagens longas e repetitivas dele mesmo. Ele devia gostar muito da própria carranca, pois é tão grande a quantidade de cenas em câmera lenta que mostram apenas Kinski caminhando em direção à câmera, ou closes do ator pensando e olhando para o infinito, que PAGANINI é um belo estudo de caso para alguma aula de Psicologia sobre narcisismo.

E o problema é que o filme não se sustenta só com esses takes da belíssima face do velho Klaus (sim, isso foi uma ironia). A história começa e termina sem que saibamos quem, afinal, foi Niccolò Paganini, pois o roteiro jamais se aprofunda no personagem. Tudo que sabemos é que ele é um grande violonista e um grande pegador, além de pai dedicado. Todo o resto precisamos supor, ou pesquisar por conta própria depois de ver o filme.


Embora o filho do violinista ocupe um tempo considerável da narrativa, sua esposa Antonia entra e sai da história de maneira tão rápida que nunca entendemos direito quem ela é ou o que está fazendo ali, como Paganini a conheceu e porque a abandonou. Ela parece existir apenas para justificar a existência do filho do músico - ou, talvez, porque Kinski prometeu um papel à mulher para compensar todas as figurantes que traçou durante o filme!

Outros personagens que gravitam ao redor de Paganini na trama tampouco ganham qualquer desenvolvimento. As meninas que o violinista seduz são todas anônimas, jamais identificadas, e só descobri que a linda Eva Grimaldi ("Black Cobra") interpretava a famosa irmã de Napoleão porque vi isso no IMDB - no filme, ela nunca é identificada como tal, e acho que seu nome sequer é citado!

Volta-e-meia surge alguma cara conhecida, como a do mímico Marcel Marceau, ou a carranca do matusalém do cinema italiano Feodor Chaliapin Jr., porém, novamente, eles não têm tempo suficiente em cena para fazer qualquer coisa. Os holofotes estão unicamente sob Kinski, e que se danem todos os outros!


Sim, o velho Klaus era um ator fantástico, e isso não se discute. Talvez até viesse a ser um grande cineasta se tivesse feito outros filmes e aprendido a lidar um pouquinho melhor com as outras pessoas da equipe. Mas julgando por esse primeiro e único trabalho, fica bem claro que ele era um fiasco como roteirista e principalmente como editor.

Em algumas cenas, a câmera sacode ou se move abruptamente mais do que necessário, como se o diretor de fotografia estivesse buscando o enquadramento ou preparando-se pra mover a câmera de lugar, e Kinski inexplicavelmente deixou esses pedaços na montagem!


E tem um montão de sequências que se arrastaaaaaaaaaaaaaam até não poder mais, naquelas típicas "punheteações artísticas" que farão os fãs de Andrei Tarkovsky e Theo Angelopoulos terem orgasmos de satisfação. Por exemplo, depois dos três minutos em que a câmera fica fixa em Paganini/Kinski comendo um pedaço de queijo, bebendo vinho e olhando silenciosamente para o infinito, você praticamente implora: "Tá bom, tá bom, será que dá para seguir em frente?".

Também me incomodaram os loooooooongos minutos de câmera fixa em que Paganini/Kinski fica fazendo carinho no rosto do filho (na ficção e na vida real), porque parece que a qualquer momento o maluco vai beijar o garoto na boca - o que felizmente não acontece, e se aconteceu ficou no chão da sala de edição!


O abuso de cenas desnecessárias em câmera lenta também depõe contra Klaus como diretor e editor, principalmente depois do vigésimo ou trigésimo take de cavalos galopando em câmera lenta em parcos 90 minutos de filme. Isso parece até confirmar uma suspeita paixão equestre do alemão, pois não passam três minutos de filme sem que surja uma carruagem puxada por cavalos galopando em câmera lenta. Lá pelas tantas, o sem-noção filma até um cavalo "perpetuando a espécie" com uma égua enquanto uma moça assiste e se masturba, em mais um momento que parece ter sido inspirado por Jess Franco (ou pelos pornôs com cavalos que o Juan Bajon fez na Boca do Lixo, que Kinski não deve ter visto, mas pelo jeito iria adorar...).

Para quem gosta de "drinking games" cinematográficos, PAGANINI é uma bela desculpa para encher a cara: basta tomar um dose de cachaça, tequila ou vodka a cada câmera lenta, ou então a cada momento em que cavalos aparecem em cena. Só não recomendo unir os dois temas, pois aí o resultado será coma alcoólico ainda nos 15 primeiros minutos do filme!


Agora chegou aquele momento da resenha em que o leitor começa a me perguntar: "Mas vem cá, o que você viu de tão fantástico neste filme então, se até agora praticamente só enumerou defeitos nele?".

Aí é que está, amiguinhos: o que me deixou embasbacado com PAGANINI é exatamente a entrega total de Klaus Kinski ao filme, não só no papel-título, mas também como diretor. Eu acho que seria justíssimo colocar PAGANINI como sinônimo, no dicionário, para a expressão francesa "tour-de-force" - usada nas artes para definir "um esforço excepcional, que ultrapassa o ótimo; quando alguém faz algo que dificilmente vá ser feito igual por outra pessoa".


Porque isso, amiguinhos, é PAGANINI: Kinski completamente doido, mas com controle total sobre um filme, sem um diretor com quem brigar ou um roteirista para questionar. Porque dessa vez, pela única vez em toda a sua carreira cinematográfica, é ele quem está fazendo tudo. E há uma beleza nessa força da natureza chamada Klaus Kinski, nesse ser humano fora de controle registrado no ápice da sua loucura, que é até difícil de explicar.

Mas, basicamente, eu via cada cena imaginando o que o alemão teria aprontado antes e depois da sua filmagem. Fiquei pensando em como ele deve ter abusado das atrizes com quem aparece fazendo sexo teoricamente simulado (o making-of que acompanha o DVD do filme mostra que ele repetiu aquela cena explícita de sexo oral pelo menos umas seis vezes, e sempre metendo a boca - e a língua - na botija!).


Enfim, fiquei visualizando Klaus berrando, gesticulando, enlouquecendo ao final de cada take, e sua equipe com medo do que ele faria a seguir. Muitas dessas doideiras estão registradas nos noventa e poucos minutos do filme, como na cena em que Kinski/Paganini fica segurando um candelabro sobre uma moça adormecida, e a cera quente das velas está visivelmente pingando sobre a atriz, que mesmo assim tenta ficar imóvel para não estragar o take!!!

Mas a maioria fica para a imaginação do espectador, e essa é a beleza do filme. Imagino que quem esteve lá, acompanhando o gênio louco e psicopata em ação, deve ter muitas histórias inacreditáveis para contar. E aposto que tudo que aconteceu por trás das câmeras foi infinitamente mais interessante que o filme pronto e editado.


É óbvio que, nesses termos, PAGANINI não é um filme para o público em geral, conforme o produtor Augusto Caminito deve ter percebido depois da sua desastrosa estreia no Festival de Cannes de 1990 - quando Kinski, claro, discutiu aos berros com jornalistas, gritando-lhes todo tipo de insultos quando eles "ousaram" criticar o filme que tinham acabado de ver.

O sonho de ter um novo "Amadeus" nas mãos terminou cedo, e Caminito optou por reeditar a obra sem o consentimento do realizador, cortando 14 minutos (incluindo as cenas mais calientes de sexo) e alterando a ordem de algumas cenas para um lançamento bastante limitado em alguns cinemas da Itália e da França. Recentemente, as duas versões foram lançadas em DVD lá na Europa.


Assim, o único trabalho verdadeiramente autoral de Klaus Kinski jamais chegou a um grande público - e nem deveria, já que 95% da humanidade vai desistir do filme ainda nos primeiros 10 minutos. Pois, para mim, é justamente aí que reside o charme da obra. PAGANINI é um "Filme Para Doidos" por excelência, aquele tipo de produção que sequer pode ser chamada de cult porque os cults não são malucos o suficiente para gostar disso.

E Klaus Kinski se entregou tanto a esse seu primeiro e único trabalho como "tudo" (astro, roteirista, diretor e editor) que depois abandonou o cinema. Talvez para evitar as piadinhas de todo mundo que ele infernizou em sua carreira como ator, principalmente diretores louquinhos para dizer algo como "Você me acusava de não saber dirigir e fez AQUILO?". Ou, talvez, porque depois de PAGANINI ele julgou não ter mais nada a dizer/fazer. Assim, o ator alemão morreu em sua casa, na Califórnia, em 23 de novembro de 1991. Foi cremado e teve suas cinzas jogadas no oceano, talvez porque nem os vermes aguentassem o sujeito.

Louco ou gênio incompreendido? A julgar por esse seu único trabalho como "autor", eu diria que ele foi um doido varrido genial, e deixou PAGANINI como epitáfio.

Trailer de PAGANINI



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Paganini (1989, Itália)
Direção: Klaus Kinski
Elenco: Klaus Kinski, Debora Caprioglio, Nikolai Kinski,
Dalila Di Lazzaro, Tosca D'Aquino, Eva Grimaldi, Bernard Blier,
Marcel Marceau e Feodor Chaliapin Jr.



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